• Cleu Nacif

DIANE ARBUS - A fotógrafa que ajudou a redefinir a fotografia documental a partir dos anos 60.

No olhar delas, por Cleu Nacif

DIANE ARBUS

A norte-americana Diane Arbus foi uma fotógrafa com forte olhar para o contraste entre a aparência e a essência dos objetos fotografados. Nascida em 1923, ela tornou-se uma das fotógrafas mais notáveis e populares dos Estados Unidos, e ajudou a redefinir a fotografia documental a partir dos anos 60.

Quando jovem, ela demonstrou forte aptidão pela pintura, mas não se sentia satisfeita com o meio. Em uma carta ao seu colega de classe Alexander Eliot, ela escreveu ‘... sinto como se eu pudesse pegar qualquer coisa, conhecê-la do meu jeito e pintá-la, mas o resultado não é tão bom como o modo como eu conheço essa coisa”.

Em 1937, ela conhece seu marido Allan Arbus, e logo após se casarem, Diane ganhou dele uma câmera Graflex de presente. Assim começou sua trajetória na fotografia.



Seu pai, que era proprietário de uma grande loja de roupas femininas, contrata ela e Allan para fazerem os anúncios publicitários da loja nos jornais. Com um estúdio alugado, os dois fizeram uma parceria profissional, fotografando moda por mais de uma década. No início, Diane era mais responsável pela produção dos cenários, enquanto Allan era quem fotografava, e até chegaram a ter certo sucesso no ramo, tendo fotos publicadas na Revista Glamour, Vogue e Seventeen, mas longe de terem notoriedade.

A fotografia de moda não os satisfazia, enquanto Allan pretendia tornar-se ator, Diane desejava penetrar na história das pessoas que fotografava, algo muito distante do que a moda da época lhe permitia. Em 1955 ela ainda buscava seu estilo pessoal. Segundo Allan, sua confiança como fotógrafa nunca estremeceu, mas havia certa insegurança quanto ao quê fotografar. Assim, ela começou um curso com a fotógrafa austríaca Lisette Model.

Diane disse que no começo, costumava fazer coisas bem granuladas. "Era fascinada com o que os grãos faziam, porque eles formavam um tipo de tapeçaria com todos aqueles pontinhos e tudo podia ser traduzido para essa mídia de pontos. A pele podia ser igual à água, que podia ser igual ao céu e você negocia com a escuridão e a luz e nem tanto com a carne e o sangue... Foi a minha professora, Lisette Model, que finalmente esclareceu que quanto mais específico você é, mais geral vai ser o resultado...”

Seguindo os conselhos da professora, Diane passou a se tornar mais específica quanto a seus assuntos. Arbus não apenas documentava pessoas, acontecimentos e ambientes tais como eles lhe apareciam, mas de alguma forma superava suas simples aparências com grande uso da imaginação e de uma relação única que cultivava com seus personagens. Essa qualidade de exceder o mero registro fez com que as suas imagens fossem por diversas vezes consideradas expressionista.

No decorrer da carreira, ela passou a ser conhecida como a “fotógrafa dos freaks”, algo que não lhe agradava. Diane produziu uma obra que tinha como foco o fora do comum, o marginalizado, a anomalia, mas ela não só fazia os registros, ela habitava esses mundos. “É tudo tão grandioso e empolgante. Vou rastejando como nos filmes de guerra” disse ela.

Ela se especializou em transformar o banal em extraordinário, acentuando distúrbios e desvios. “Freaks foi o que eu fotografei muito. Eu os adorava, eles me faziam sentir uma mistura de sensações. A maioria das pessoas vive a vida com medo de experienciar alguma experiência traumática. Freaks já nasceram com seu trauma, eles já passaram pelo teste da vida, eles são aristocratas.”

Ela não captava na surdina. Pelo contrário, apesar de no começo ter sido um pouco mais discreta nas suas capturas, na medida em que conseguiu confiança entre ela e quem fotografava, ali se desenvolvia uma sintonia absoluta entre quem ela fotografava e Arbus.

Seus personagens não só sabiam que estavam no processo, como construíam suas máscaras com esmero. Arbus não queria as fantasias que as pessoas construíam para si, mas sim o que estava por trás desse disfarce.

Segundo o amigo Marvin Israel: “Uma fotografia para Diane era um evento. Pode-se afirmar que para ela a coisa mais valiosa não era a fotografia (o resultado), era a experiência - o evento. Ela era completamente estimulada por cada um deles e podia narrá-los com detalhes. Ela não diria apenas “tirei essa fotografia e mais essa”. A questão era ir até lá - estar lá, o diálogo que se desenrolava, os momentos de espera - sem nenhuma palavra. Era uma coisa incrivelmente pessoal e uma vez que ela se tornou uma aventureira - porque Diane era realmente uma aventureira - ela foi a lugares que ninguém [nenhum fotógrafo] foi. Esses lugares eram assustadores... (...) ela era movida pela aventura e sua vida era baseada nisso... a fotografia era como um troféu - era o que recebia como prêmio por sua aventura”.

Arbus batalhou com a depressão em vários momentos da vida, e no dia 28 de julho de 1971 foi encontrada morta em sua banheira, após ter tomado uma alta quantidade de barbitúricos e com profundas incisões nos pulsos. A última página de seu diário data do dia 26. As páginas dos dias 27 e 28 foram arrancadas do caderno e nunca foram recuperadas.




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@2019 por Mark Greathouse

©Todas as fotos são de autoria dos professores da Ansel