• Cleu Nacif

No Olhar delas entrevista: Márcia Charnizon e os Retratos

Atualizado: 29 de Out de 2019

Por Cleu Nacif


Entrei em contato com a Márcia sem muita pretensão de conseguir uma entrevista, porque sei da carreira dela há anos e achei que minha mensagem se perderia no ar rarefeito da internet.

Uma das alegrias dessa mesma internet é que ela possibilita uma conversa entre pessoas que talvez nunca se cruzassem, e mais: ela nos permite ficarmos surpresos quando a resposta é tão carinhosa e acessível.


Hoje o Olhar, as palavras e a fotografia são todos dela, e que honra escutar tantas histórias entorno de uma mineira tão potente e de sua fotografia!


Márcia Charnizon


Márcia, o que te fez ir para a fotografia?


Eu tenho uma prima que é fotografa e, nos anos 80, ela era não só uma referência pra mim como ofício, como artista como também era uma referência feminina.

Já meu pai foi um fotógrafo amador também; eu estava lendo um diário dele de quando ele tinha 15 a 18 anos, e tem uma página lá que ele fala que nada mais dá prazer a ele além da ampliadora e a fotografia que ele faz.

Ele nunca comentou isso comigo, isso foi passado pelo silêncio, por aquela transmissão mágica que é a educação e a transmissão dessas coisas através do silêncio. Então acho que o que me fez ir para a fotografia no final foi o DNA, tem muitos fotógrafos na minha família Charnizon. Eu comecei com 13 anos a fotografar e fui emancipada com 16 anos pra ter o estúdio de fotografia.


O que a fotografia significa para você?


Experiência de vida, porque a minha fotografia fala de encontros e de como esses encontros me afetam. Eu faço basicamente retratos, então aonde essas pessoas me encantam ou me desencantam, para o bem ou para o mal eu estou sempre reafirmando quem eu sou naquele momento, nós somos muito mutantes também, então a fotografia me faz crescer como sujeito, como pessoa, porque ali eu estou sempre me vendo, e vendo aonde que eu estou implicada na construção daquela imagem.



Foto do livro Memorabilia da Casa de Azevedo


Quem te inspira?


A música me inspira muito, como Dorival Caymmi. De forma tão simples ele diz tanta coisa.

Essa coisa de a partir do simples você conseguir se comunicar dentro de um universo e para um universo, isso me encanta muito. Momentos onde eu tenho prazer me inspiram, momentos com amores, com amigos jogando conversa fora, quando a gente canta e come alguma coisa gostosa... eu acho que a inspiração está no simples da vida, igual a felicidade; e também está nas tristezas e nas angústias, nos sonhos que parecem perdidos.


Você vê diferenças no mercado fotográfico entre homens e mulheres?


Eu vim de um lugar muito privilegiado, onde o meu pai falou que eu podia ser o que eu quisesse. Imagina um pai nos anos 80 deixar uma filha ser fotógrafa, trabalhar à noite, e minha mãe também. Os meus amigos eram todos do mundo da arte, então eu não vivi isso, ou se eu vivi eu nem me dei conta.

Eu sentia mais uma agressão por ser nova, trabalhando num formato que os fotógrafos na época não trabalhavam.

O contrário do que as pessoas pensam, eu não comecei fazendo casamento, isso veio depois. Eu fiz teatro, fiz moda, fiz retrato... Lembro de um único momento em que um cinegrafista foi ríspido comigo- foi uma coisa boba, mas que talvez se eu fosse homem não teria acontecido.

Então eu vim de fato de um lugar muito privilegiado que me colocou em uma estrutura que eu realmente não senti diferença, mas óbvio que eu não posso falar por um mercado.

Acho que consegui abrir um espaço na fotografia, e principalmente na fotografia de casamento, consegui esse lugar de validação, de valor como mulher. Mas sei que para muitas, com certeza existe uma diferença grande.




Márcia, você que já tem uma carreira sólida, fotografa desde 1983 com várias conquistas e premiações no currículo, vivenciou de perto as mudanças da fotografia analógica pra digital, e agora a dos smartphones que estão com câmeras cada vez mais potentes acopladas aos aparelhos, você vê alguma mudança mais forte em relação ao mercado e/ou às fotografias em si produzidas por aí no cenário fotográfico?


Eu acho que a fotografia mudou totalmente depois do digital. Tem quem defenda que não existe nem mais a fotografia no sentido da escrita com a luz. Essa coisa de ter democratizado o acesso à produção da imagem, eu acho muito bom, mas acho que essa leitura a gente só vai ter daqui uma geração, porque nós estamos no olho do furacão, e assim fica muito difícil termos uma visão crítica sobre isso.

Num primeiro momento, para o bem ou para o mal, eu acho isso muito bom porque amplia as ferramentas de construção de imagem, e você ter uma ferramenta não significa você ter uma linguagem. É aí é que mora a questão. O mundo está muito rápido, isso tira os fotógrafos da zona de conforto, o que é bom, ao mesmo tempo piora o mercado, o que é ruim (claro que isso também tem outros inúmeros fatores), então no final eu acho que é válido essa democratização da imagem sim.


Alguma fotografia de outro fotógrafx te marcou?


Cada hora a gente é marcado por algo nesse mundo, mas me lembro de algumas coisas que eu nunca vou esquecer. Uma delas foi a exposição do Gilbert Garcin. Ele faz umas montagens, com uma pegada surrealista, estilo Bauhaus, que eu acho lindo, que é algo que debocha um pouco da nossa condição humana.

Eu gosto disso, porque a vida é tão curta, o ser humano é tão pequeno. Eu gosto da criação que traz esse deboche, e nessa mesma linha eu adoro o Martin Parr, entre muitos outros, mas são os que me lembro agora.


Alguma fotografia que você fez te marcou? Compartilha a história 😊


São tantos anos! Tem um trabalho recente que o processo vem me marcando, que é o Centennials. Nele estou fotografando adolescentes.

Desenvolvi um processo onde eu fotografo na escuridão. Eu escolho onde vai ser a foto, monto tudo no finalzinho do dia para quando ficar escuro. As meninas se colocam na minha frente, elas não me veem porque não tem luz nenhuma e eu também não vejo a expressão delas. O encontro acontece quando o flash dispara. E é muito bonito, é muito sonoro você estar ali no visor da câmera, pra quando o flash dispara ver aquele olhar direto em você.

Essa geração é muito interessante e muito potente na sua expressão corporal, sabem encarar uma lente, elas quem definem a própria postura, o olhar, a perna, etc., e defendem com empoderamento as questões da contemporaneidade. Na hora que o flash dispara eu vejo aquele olhar dentro do meu olho.

Então tem sido um processo que está me marcando muito.



Lembrei de uma imagem também, de quando eu morei em Israel em 93/94. Eu estava com 2 amigos americanos fazendo o retrato de um beduíno, perto do Egito. Eu o chamei para o retrato, e comecei a dirigir a cena. Ele tinha um cigarro, e eu fui direcionando ele, e em uma terceira direção, o meu amigo americano se sentiu incomodado por eu estar dirigindo demais o cara. A foto ficou linda, o beduíno olha dentro do meu olho, através da minha direção de cena.


Eu já vivi isso uma outra vez, em NY. Estava com meu filho, a gente estava fazendo um trabalho, e teve um momento que um pai abraçou a filha e ficou num momento muito íntimo e emocionante com ela. Eu fui chegando perto, devagar e devagar, e fui fotografando sem eles perceberem.

Meu filho falou: Mãe, já está suficiente, chega!!!


É engraçado, às vezes as pessoas se incomodam com alguma coisa que quem está na cena não está nem aí, está até curtindo.


Lembrei de outra. Eu estava na Itália, fazendo um casamento com 100 convidados brasileiros. Um lugar lindo! O pai do noivo me chamou e pediu para que eu fizesse uma imagem com as 100 pessoas, porque elas eram muito importantes para eles. Ele me perguntou se eu conseguiria fazer a foto.

Eu olhei ao redor, estávamos em uma praça central onde havia uma escadaria grande, e eu falei: tem sim, deixa comigo!

Eu acho que essa imagem traduz aquele casamento. Se a gente pudesse sempre reunir tantas pessoas amadas de um casamento em uma grande imagem, seria essa A foto.


Tem algum sonho dentro da fotografia que ainda queira alcançar?


Eu quero com 90 anos estar vivendo de fotografia, que ela continue pagando minhas contas, que a fotografia continue sendo o meu meio de expressão. Esse é o sonho.



Pra conhecer mais do trabalho da Márcia Charnizon:


http://www.marciacharnizon.com.br/


@marciacharnizonoficial



Não sei vocês, mas eu saio dessa entrevista inspirada <3

Obrigada Márcia!


Cleu



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@2019 por Mark Greathouse

©Todas as fotos são de autoria dos professores da Ansel